Ouve-se um barulho de chinelos se arrastando em cemitério... schec, schec, schec... Logo se reconhece: é Dona Fulana vindo.
Dona Fulana não fala. Mastiga as palavras, com educação: de boca fechada. De dentes trancados. Uma língua que só ela entende.
Mas essa parece a única educação que ela tem. O que ela entende por higiene e bons costumes, eu entendo o contrário. Coitada. A unha encardida que limpa o chão é a mesma que vai no bife do almoço. Quando Dona Fulana faz um bolo e me oferece, digo “Ô, Dona, obrigada, mas estou de dieta”, e num falso agradecimento “hmm... está com uma cara ótima!”.
Esta Dona adora comida. Não pode ver alguém comendo ou esboçando um gesto parecido com o abrir de uma barra de chocolate, e logo pergunta: “que isso?”. Teria ela uma lombriga Oiapoque-ao-Chuí?
Aliás, ela pergunta “que isso?” pra tudo. Para o que é de seu real interesse (quase nada) e para o que não é também. Dona Fulana Xereta.
Ela é do tipo que enche o saco, mas não por maldade, e sim por hábito. Faz sem perceber. E as vítimas, por terem pena, agüentam sem dar um pio. Eu mesma penso duas vezes antes de mandar um “cai fora, véia!”. Mas de nada adiantaria. Porque quem não tem noção repete a ação. Ignoro.
Às vezes dá raiva, às vezes pena. Pois, por detrás daquele chinelo arrastando, da boca trancada pra falar e arreganhada pra comer, da xeretice e da inconveniência, está um bom coração.
Eu diria que Dona Fulana é ingênua. Tem uma pureza que o mundo moderno não acata. Ô, véia chata! Não teve boas oportunidades na vida: trabalhou na roça de sol brabo quando menina, hoje todos lhe dão mais idade do que tem, é faxineira, casou-se com um trabalhador-cachaceiro, e nunca têm dinheiro, penam nessa vida.
Dona Fulana formou-se clichemente na escola da vida. Sofrida, sem educação, quase sem comida, sempre sem noção.
Dona Fulana me irrita, mas a compreensão que eu tenho não me deixa maltratá-la (tanto). Quando escapa uma palavra agressiva, ela entende que não estou nem com saco nem com tempo; sai de fininho. Sem mágoas. E depois volta... Dona Fulana Marmota!
Márcio Anix é membro honorário deste blog. Mais conhecido como Marcin por amigos e inimigos, anunciamos de antemão que dificilmente haverá colaborações dele por aqui. Pela simples razão de que o rapaz sofre de bloqueios redacionais.
Ele simplesmente não consegue ser ele mesmo quando escreve. Só quando bebe. Mas como ele bebe o suficiente para entorpecer a coordenação motora, impossível lhe pedir para que escreva ébrio. Provavelmente escreveria em outra língua ou apenas vomitaria no teclado de seu computador.
Você agora deve estar pensando “quem é esse puto?”. É difícil responder tal pergunta. O mesmo que dimensionar uma lenda viva, um mito. Por ele ser o padrinho deste emporcalhado blog, você pode deduzir algumas características.
A primeira delas é a anarquia. Diz a lenda que nos tempos de faculdade, quando iniciou um estágio, ele simplesmente adentrou no laboratório com um extintor de incêndios em mãos só para causar uma “boa impressão”.
Sabe o Will Ferrell? Por algum tempo foi especulado que talvez o comediante fosse o irmão gêmeo perdido dele. Detalhes biográficos confirmam, por outro lado, que o personagem Frank, o Tanque, foi inspirado em histórias mal-explicadas de sua vida.
Márcio Anix e sua última namorada
Marcin fez jornalismo, mas serviu bons anos como um trabalhador braçal. Com uma ironia do destino, foi obrigado a deixar de lado a anarquia das calças largas em jeans para adequar-se ao padrão mauricinho requerido pelo seu novo cargo concursado num banco.
Meio sortudo no jogo - principalmente em partidas de futebol pelo videogame -, e azarado no amor - tomou chutes na bunda quando se envolveu demais, alimentou o rancor de muitas outras quando se envolveu de menos. Ele sabe que a vida não deve ser levada muito a sério e, por isso, se recusa com veemência a incorporar qualquer tipo para ser um ator em sociedade.
Nosso membro honorário e seu amor corintiano
Em uma conversa de bar, não tem melindres e nunca deixa escapar papos insólitos ou escrotos. É capaz de discutir doenças venéreas em uma roda de garotas e até de catalogar novos tipos moléstia, como a já clássica “fimose hepática”.
É também dono de um dicionário muito particular. Não estranhe se qualquer dia alguém se referir a uma meia-soquete como “meia-boquete”, falar “pau me toque” ao invés de palm top, trocar escrúpulos por crepúsculos ou referir-se ao Vítor Belfort no videogame como Vítor Bem Forte. No dia em que essas palavras forem oficializadas, o Aurélio estará aposentado.
Márcio Anix curte rock n’ roll. Adepto incondicional do bate-cabeça, é capaz de perder alguns minutos do seu dia para aprender novas técnicas da slam-dance pelo Youtube. É fã de Ramones, mas conhece de cor todas as canções pagodeiras de grupos como o Raça Negra, a quem ele gentilmente denomina de músicas para churrasco.
Márcio Anix é meio pobre, mas fica rico quando bebe. Se empolga tanto em baladas que não raro você o vê pagar cervejas para a mulherada e aos amigos, como se fosse o dono do lugar a gritar: “hoje é por conta da casa”.
Ele tem um carro chamado Rufus, o lenhador. O apelido foi dado em tributo após o automóvel destruir uma árvore de calçada após um reconfortante cochilo ao volante.
Quando bebe demais, ele liga para mulheres desconhecidas do seu celular no intuito de marcar encontros fortuitos. Quando não bebe suficiente, se frustra ao ponto de ficar ainda mais bêbado, capaz de gestos fúteis como: 1) mostrar sua bunda gorda pela janela do carro. 2) comprar um repolho na feira e ostentá-lo como se fosse o troféu de uma São Silvestre.
Marcin e sua receita secreta para manter a forma: repolho for breakfast
Se Charlie Sheen não tivesse proferido tão sábias palavras ao longo das temporadas de Two and a Half Men, pode ter certeza que você um dia ouviria elas sendo usadas com propriedade por Márcio Anix: “vou para um lugar onde as garrafas são cheias e as mulheres vazias”. A isso ele chamaria de paraíso.
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Marcin concentrado no expediente do seu antigo trampo: